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O Corpo Como Plataforma Artística 02 de Março de 2016, 16:45

Por Mariana Lorenzi

*Mariana é curadora e trabalha na Casa do Povo, em São Paulo. Tem se interessado em pesquisar o corpo como ferramenta política na arte contemporânea.

Nos últimos meses, temos acompanhado o crescimento de um movimento de empoderamento das mulheres no Brasil. Em novembro de 2015, foram elas quem fizeram a oposição contundente e barulhenta contra a proposta do presidente da câmara dos deputados, Eduardo Cunha, sobre o aborto no país. A frase “Meu corpo, minha escolha”, tomou as redes sociais e milhares de mulheres ocuparam as ruas reivindicando o direito ao próprio corpo e às suas escolhas.

Na arte, a reflexão sobre o papel da mulher na sociedade passa, em muitos casos, pelo corpo. Não é a toa que grandes nomes da performance sejam mulheres. A escolha por esse tipo de linguagem teve um boom a partir dos anos 1960, época de contracultura em que movimentos sociais como o feminismo se proliferaram pelo mundo. Em um período em que pouquíssimas mulheres participavam do circuito oficial das artes – exposições em museus, galerias comercializando suas obras, postos em universidades de arte –, essas artistas viram na performance um campo fértil de experimentação e de discussão sobre os tabus e estereótipos ligados à representação das mulheres. Artistas como Marina Abramovic, Valie Export, Adrian Piper, Maria Teresa Hincapié, Yoko Ono, entre outras, optaram por usar o corpo não apenas como plataforma artística, mas também como espaço para um discurso político que denunciasse os abusos sofridos pelas mulheres.

 
 From the Underdog File, 1968, de Valie Export 

No Brasil, a artista carioca Márcia X. pode ser considerada um dos grandes nomes da performance. A artista começou a produzir no início da década de 1980, uma época em que o circuito das artes na cidade era dominado por artistas homens. Justamente por não ter que submeter sua produção à nenhum tipo de expectativa comercial, Márcia utilizou a performance para quebrar com diversos estereótipos femininos, questionar a sociedade patriarcal em que vivemos e levantar reflexões sobre o papel da religião como forma de controle dos nossos corpos. Em obras como Pankake (2001), Desenhando com terços (2001/03) e Ação de Graças (2002), a artista utilizava o próprio corpo para criar ações simbólicas, muitas vezes repetidas à exaustão, utilizando elementos que remetem à padrões associados às mulheres.

 
 Performance : Pankake de Marcia X.

Hoje, apesar das mulheres terem conquistado mais espaço no mundo das artes, ainda é comum que as exposições apresentem um número consideravelmente inferior de mulheres, ou que as galerias tenham mais homens na lista de artistas representados. Talvez por isso, a performance continue sendo amplamente explorada por artistas mulheres. Nomes como Luísa Nóbrega, Rubiane Maia, Fabiana Faleiros e Cibelle (apenas a última representada por uma galeria), seguem utilizando a performance e seus corpos ­­­­­– das mais variadas formas – para quebrar tabus e preconceitos sobre a mulher que seguem se perpetuando em pleno século XXI.


Soberba e penitência ou os sapatos vermelhos, 2010, de Luísa Nóbrega 


Meu primeiro contato com Alicja Kwade 23 de Fevereiro de 2016, 14:52

Por Camila Leite. 

*Camila trabalha com criação estratégica, é manager da banda Lumen Craft, mora em São Paulo, e, segundo ela, apesar de não ser nenhuma especialista no assunto, adora arte.

Na minha última viagem a Berlin tive a oportunidade de visitar a coleção pessoal de arte contemporânea do bilionário Christian Boros, abrigada num bunker na parte oriental da cidade. O espaço, idealizado pelo arquiteto pupilo de Hitler, Albert Sperr, construído em 1942, já foi de tudo: desde presídio usado pelo Exército Vermelho no pós guerra, até hardcore techno club, com direito a festas de sadomasoquismo nos anos 1990.

Hoje, no rooftop do bunker - com cinco andares e paredes de quase dois metros de espessura - mora a família Boros (Christian, sua mulher e o filho do casal) que dorme, literalmente, sobre vários dos maiores nomes da arte contemporânea, gente como Ai Weiwei, Olafur Eliasson e Tomas Saraceno.

Esse foi o contexto do meu contato com o trabalho de Alicja Kwade, artista polonesa de 36 anos baseada em Berlin. “The Day Without Yesterday” (2009), a primeira obra de Kwade a qual tive acesso, foi uma densa experiência sensorial a partir da amplificação dos sons produzidos por luzes de neon, a ponto de deixá-los quase insuportáveis. O propósito era quebrar o padrão ao qual nos acostumamos a conviver com esses pequenos, incômodos e constantes sons.

Acho que é do ser humano a dificuldade de operar com o que é desagradável. Muitas vezes abstraímos a presença do que não nos agrada para não termos que lidar com situação. O que, na verdade, é um belo tiro no pé. Para mim, o contato forçado com o irritante som das luzes de neon trouxe a reflexão sobre o tempo que gastamos automatizando coisas que não gostamos, achando que, assim, vamos faze-las desaparecer. Foi tão intenso quanto um wake up call interurbano, à cobrar, da Polônia.

O trabalho de Kwade é um convite à meditação sobre temas como universos paralelos, tempo, realidade, ilusão e verdade. O desconforto causado por ensurdecedores barulhos vindos de luzes de neon (The Day Without Yesterday, 2009); uma porta de madeira em espiral (Transformed I Rise Again As The Same, 2013); um simples relógio de parede que acelera e desacelera em determinada cadência (Influence, 2015); foram algumas das obras que eu tive o prazer de ver ao vivo tanto dentro do bunker de Christian Boros, quanto na Haus am Waldsee (ainda na mesma viagem).

As respostas de suas questões (por interpretação própria, claro) vêm da física, filosofia e sociologia. “Transformed I Rise Again As The Same”, por exemplo, surgiu a partir de uma pesquisa do físico experimental suíço Jakob Bernoulli. Ele descobriu no final do século XVII que há espirais em toda a natureza que correspondem ao formato de uma certa série logarítmica: conchas de caracol, ciclones ou a forma como as sementes são dispostas em um girassol.

Seu interesse por mundos paralelos e o olhar afiado para o paradoxal a fez copiar incansavelmente manuscritos do inventor e físico sérvio Nikola Tesla (1856-1943), conhecido por suas conquistas no campo da engenharia eletrônica, até produzir falsificações tão credíveis que nem mesmo grafólogos conseguiram notar a diferença. Eu vi de perto esses manuscritos - e as autenticações dos grafólogos - no segundo andar da exposição “Monolog From The 11th Floor”, na Haus am Waldsee. É realmente bem impressionante.

Esse post é um convite a todos que não conhecem o trabalho da artista a pesquisarem a repeito. Escolhi dividir minhas percepções por pura identificação com os temas, a sensibilidade e o bom humor de uma mulher forte, do meu tempo e que traz sua compreensão deste - e de vários outros - mundos para a nossa realidade física.


Obrigada, Lina (Bo Bardi). 17 de Dezembro de 2015, 13:56

Por Michele Merlucci

Brasileira, paulistana, nascida e crescida na Pompéia e hoje moradora do Alto da Lapa.
Expus todo o currículo para contextualizar meu cenário de vida.

Quando pequena o passeio preferido do meu pai era nos levar ao SESC POMPÉIA, que é um centro de cultura e lazer na zona oeste de São Paulo, localizado na Pompéia (bairro em que cresci, lembram?). O SESC POMPÉIA tem um grande espaço para exposições, teatro, choperia, oficinas, piscina e quadras esportivas, além de ser um dos projetos arquitetônicos mais lindos e intrigantes.

Eu e meu irmão escolhíamos um livro da biblioteca e líamos numa tarde, sentadinhos ao lado de desconhecidos. O outro passeio era visitar as obras expostas. E por fim, correr pela rua central, pelos coletores de água e claro, pular de um lado para outro do laguinho de pedrinhas.

Aquelas linhas não eram comuns. Nos meus olhos de criança, aquele lugar era mágico.

Cresci, e entendi que havia mais do que magia. Havia um projeto idealizado e executado por uma artista. Uma leitura semiótica da realidade, uma associação de pragmatismo com sonho e utopia que sempre acreditou na possibilidade de construção de espaços de convivência, associando simplicidade com sofisticação.

Italiana, nascida e crescida em Roma e Milão, arquiteta posteriormente naturalizada brasileira e moradora da Casa de Vidro no Morumbi. Lina Bo Bardi.

Além das obras de arquitetura, Lina produziu para o teatro/cinema, artes plásticas, cenografia e realizou curadoria para exposições.

Suas obras acreditam no potencial popular de criação e dão voz para que isso aconteça.
Espaços “feios e inacabados” que convidam a serem construídos e reconstruídos. 
Espaços pensados para que as pessoas convivam.
Espaços fechados com córregos de água que desenham formatos inesperados.

Cresci com Lina. Emocionei-me com as exposições mais lindas. Viajei nas mesmas páginas que outras crianças, adultos e idosos viajaram. Torci o pé tentando pular o lago desenhado por ela. Senti na pele os shows mais deliciosos. Tive as melhores risadas nas peças de teatro porque via o rosto das outras pessoas assistindo também. Aprendi a compartilhar. Vejo o simples e acho lindo. O inacabado para mim é perfeito.

Fontes e Imagens: http://www.archdaily.com.br/br/01-153205/classicos-da-arquitetura-sesc-pompeia-slash-lina-bo-bardi - *A arquitetura política de Lina Bo Bardi


FRIDA KAHLO e outras histórias. 02 de Dezembro de 2015, 13:16

Por Michele Merlucci.

No Instituto Tomie Ohtake em São Paulo, está rolando a exposição Frida Kahlo: Conexões entre mulheres surrealistas no México. É uma mostra de obras intensas, dramáticas e subjetivas vinculadas ao surrealismo. Mulheres artistas mexicanas e estrangeiras, naquela tentativa desesperada de escapar do império do realismo e do racionalismo.
São artistas mulheres reconhecidas no passado como “esposas” desse ou daquele artista, mas que aqui são protagonistas, as grandes criadoras, desafiadoras e produtoras de uma arte que permite reflexões e que nos deixa à vontade para comentar: que incríveis.
 A curadora Teresa Arqc reuniu obras de 15 artistas (Frida Kahlo, Lola Álvarez Bravo, María Izquierdo, Leonora Carrington, Kati Horna, Jacqueline Lamba, Alice Rahon, Remedios Varo, Bona Tibertelli, Bridget Tichenor, Cordelia Urueta, Lucienne Bloch, Olga Costa, Rosa Rolanda e Sylvia Fein), que adotaram uma postura pessoal, criadoras independentes que nos deram um mundo inovador e cheio de imaginação.
Eu, que adoro uma boa dose de drama e uma selfie bem tirada, fiquei um bom tempo olhando para o quadro de Frida Kahlo, Diego en mi pensamiento, pintado em 1943. Dá para sentir o amor que ela nutria pelo marido, Diego Rivera, mesmo em meio a tanta infidelidade. Nota-se também um olhar de sofrimento profundo.

Frida Kahlo, Diego en mi pensamiento, 1943, Oil on masonite, 76 x 61 cm, ©2015 Banco de México Diego Rivera & Frida Kahlo Museums Trust.

Outra obra que me deixou fascinada foi a Colagem com duas moscas feita em 1953. Esse foi um dos anos mais sofridos de sua vida, onde teve a perna amputada na altura do joelho. 
Em seu diário havia muitos textos ambíguos, ora com muita tristeza, ora com afirmações do tipo “Pés, para que os quero se tenho asas para voar.” Fico pensando se as moscas representam as asas ou a sujeira do momento.


Frida Kahlo – Colagem com duas moscas, 1953

Como amo o mundo de fantasias e um universo cheio de imaginação em que a obra nos deixa viajar, aproveitei para apreciar esse lindo quadro de Remédios Varo, Roulotte (Interior en Marcha) de 1955. Sua técnica consistia num processo árduo e delicado. Começava com um desenho completo para então transferi-lo para a tela, aplicava delicadamente o verniz e a camada de tinta, combinados com gotas, borrões e arranhados, trabalhando profundidade e superfície. A técnica permitia aproveitar as nuances entre fundos escuros e personagens claros.


Remédios Varo, Roulotte (Interior en Marcha), 1955

Além das obras, a exposição conta com muitas fotos, matérias originais sobre as artistas, filmes e os incríveis "looks" de Frida....que são lindos!

A entrada custa R$ 10,00 e sempre haverá uma pequena fila, mas tudo bem, vale a pena. Coloque algo confortável nos pés, se estiver de bolsa deixe no guarda volumes e com uma garrafinha de água nas mãos (e claro, seu celular) sinta essa linda exposição.

Até 10.01.2016, no Instituto Tomie Ohtake, na Av. Faria Lima, 201 (entrada pela R. Coropés) – Pinheiros, SP.

Importante: os ingressos são divididos em quatro períodos de visitação, com acesso das 11h às 13h, das 13h às 15h, das 15h às 17h e das 17h às 19h, todos os dias.


Gucci + Verena Smit 16 de Novembro de 2015, 22:02

Por Roberta Cajado.

Verena Smit foi uma das artistas escolhidas para dar início à OAK. Conheci o trabalho sensível, porém forte e destemido, da artista quando ela ainda morava em Nova Iorque. Venho observando o trabalho da Verena há mais ou menos 3 anos e vibrando com suas conquistas. Há algumas semanas atrás ouvi sobre uma parceria incrível com a Gucci e me deparei com seu trabalho no Instagram da marca para a campanha #GucciGram, que estabelece uma parceria entre o estilista Alessandro Michele e artistas selecionados por ele. A proposta desta colaboração foi pedir aos artistas que interferissem livremente, trazendo novas interpretações para as duas novas estampas da marca que você vê a seguir:

A Harper's Baazar fez uma entrevista com Verena, contando mais detalhes sobre o projeto. Clique aqui para ler.

 


A OAK + as mulheres. 03 de Novembro de 2015, 00:01

Por Roberta Cajado.

Olá, somos a OAK.
Você pode estar se perguntando agora do porquê desse nome ou, talvez, o que viemos fazer aqui? Vou tentar explicar ... O básico dá para descobrir no site (vai lá no "Sobre a OAK" que você encontra). Mas o que lá não está dito, e que eu me peguei pensando esses dias, é:

Por que somos "a" OAK, assim, no feminino? OAK significa Carvalho, palavra masculina, oras. O nome veio da força, da maturidade, da beleza que essa arvore só atinge quando o tempo passa.  Mas, principalmente por ser árvore, que como já disse Arnaldo Antunes:

Cresce pra cima como as pessoas
Mas nunca se deitam
O céu aceitam
Crescem como as pessoas
Mas não são soltas nos passos
São maiores, mas
Ocupam menos espaço
Árvore da vida
Árvore querida.

Pensamos: Oras, mas Carvalho é uma árvore, palavra feminina. E carvalho não é carvalho sem ser árvore. E então assim começamos: apresentando uma maioria de artistas mulheres e ressaltando a importância delas no mundo criativo. Isso não significa a ausência de talentos masculinos. Só significa que volta e meia você vai conhecer artistas novas que também tem muito pra compartilhar.

Para celebrar esse lançamento da OAK, selecionamos aqui algumas das nossas artistas (e obras) preferidas. Espero que goste e volte pra ver as novidades.

Lygia Clark - Bichos
Lygia Clark - Bichos

Kiki Smith - Hail Full of Grace, the Lord is with Thee
Kiki Smith - Hail Full of Grace, the Lord is with Thee

 

Sophie Calle - The Wedding Dress
Sophie Calle - The Wedding Dress

Mira Schendel - Untitled
Mira Schendel - Untitled

 

Jenny Holzer - A Place in the Universe
Jenny Holzer - A Place in the Universe

Rivane Neuenschwander - The Silence of The Sirens
Rivane Neuenschwander - The Silence of The Sirens


Marilá Dardot - Azul, Manoel de Barros
Marilá Dardot - Azul, Manoel de Barros