Meu primeiro contato com Alicja Kwade 23 de Fevereiro de 2016, 14:52

Por Camila Leite. 

*Camila trabalha com criação estratégica, é manager da banda Lumen Craft, mora em São Paulo, e, segundo ela, apesar de não ser nenhuma especialista no assunto, adora arte.

Na minha última viagem a Berlin tive a oportunidade de visitar a coleção pessoal de arte contemporânea do bilionário Christian Boros, abrigada num bunker na parte oriental da cidade. O espaço, idealizado pelo arquiteto pupilo de Hitler, Albert Sperr, construído em 1942, já foi de tudo: desde presídio usado pelo Exército Vermelho no pós guerra, até hardcore techno club, com direito a festas de sadomasoquismo nos anos 1990.

Hoje, no rooftop do bunker - com cinco andares e paredes de quase dois metros de espessura - mora a família Boros (Christian, sua mulher e o filho do casal) que dorme, literalmente, sobre vários dos maiores nomes da arte contemporânea, gente como Ai Weiwei, Olafur Eliasson e Tomas Saraceno.

Esse foi o contexto do meu contato com o trabalho de Alicja Kwade, artista polonesa de 36 anos baseada em Berlin. “The Day Without Yesterday” (2009), a primeira obra de Kwade a qual tive acesso, foi uma densa experiência sensorial a partir da amplificação dos sons produzidos por luzes de neon, a ponto de deixá-los quase insuportáveis. O propósito era quebrar o padrão ao qual nos acostumamos a conviver com esses pequenos, incômodos e constantes sons.

Acho que é do ser humano a dificuldade de operar com o que é desagradável. Muitas vezes abstraímos a presença do que não nos agrada para não termos que lidar com situação. O que, na verdade, é um belo tiro no pé. Para mim, o contato forçado com o irritante som das luzes de neon trouxe a reflexão sobre o tempo que gastamos automatizando coisas que não gostamos, achando que, assim, vamos faze-las desaparecer. Foi tão intenso quanto um wake up call interurbano, à cobrar, da Polônia.

O trabalho de Kwade é um convite à meditação sobre temas como universos paralelos, tempo, realidade, ilusão e verdade. O desconforto causado por ensurdecedores barulhos vindos de luzes de neon (The Day Without Yesterday, 2009); uma porta de madeira em espiral (Transformed I Rise Again As The Same, 2013); um simples relógio de parede que acelera e desacelera em determinada cadência (Influence, 2015); foram algumas das obras que eu tive o prazer de ver ao vivo tanto dentro do bunker de Christian Boros, quanto na Haus am Waldsee (ainda na mesma viagem).

As respostas de suas questões (por interpretação própria, claro) vêm da física, filosofia e sociologia. “Transformed I Rise Again As The Same”, por exemplo, surgiu a partir de uma pesquisa do físico experimental suíço Jakob Bernoulli. Ele descobriu no final do século XVII que há espirais em toda a natureza que correspondem ao formato de uma certa série logarítmica: conchas de caracol, ciclones ou a forma como as sementes são dispostas em um girassol.

Seu interesse por mundos paralelos e o olhar afiado para o paradoxal a fez copiar incansavelmente manuscritos do inventor e físico sérvio Nikola Tesla (1856-1943), conhecido por suas conquistas no campo da engenharia eletrônica, até produzir falsificações tão credíveis que nem mesmo grafólogos conseguiram notar a diferença. Eu vi de perto esses manuscritos - e as autenticações dos grafólogos - no segundo andar da exposição “Monolog From The 11th Floor”, na Haus am Waldsee. É realmente bem impressionante.

Esse post é um convite a todos que não conhecem o trabalho da artista a pesquisarem a repeito. Escolhi dividir minhas percepções por pura identificação com os temas, a sensibilidade e o bom humor de uma mulher forte, do meu tempo e que traz sua compreensão deste - e de vários outros - mundos para a nossa realidade física.